Sobre os indicadores

Por Luís Alceu Paganotto

indicadores para a gestão de compras públicas
Fonte: https://blogs.iadb.org/gestion-fiscal/pt-br/indicadores-para-gestao-das-compras-publicas/

Durante 38 anos trabalhei numa das mais competentes instituições brasileiras: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O IBGE não é só competente, é também uma das instituições que goza de grande credibilidade entre a comunidade científica, a comunidade acadêmica e a sociedade em geral. Durante boa parte desse tempo de serviço no IBGE tive envolvimento direto com a demanda dos vários segmentos da sociedade por informações, atendendo estudantes, professores, consultores, e gestores públicos que nos procuravam tentando encontrar respostas para seus problemas. Grande parte dessas demandas teve relação com uma coisa que o IBGE sabe fazer como ninguém: produzir indicadores sobre quase tudo o que se relaciona com as atividades humanas. E é em função dessa experiência e do meu envolvimento hoje com o acompanhamento da pandemia por covid-19 no Paraná que quero falar um pouco sobre isso. Sobre indicadores e sobre o que fazer com eles. Preciso abordar duas coisas antes de falar exatamente sobre indicadores.

Há alguns anos, fui convidado a participar de um seminário que se propunha a discutir a necessidade de produzirmos novos indicadores que ajudassem a entender a realidade social no Estado. Na ocasião, eu tinha passado por uma experiência a esse respeito, a pedido do Governo Municipal de um importante município da Região Metropolitana de Curitiba. Pelo terceiro ano consecutivo essa prefeitura me pedia para treinar uma equipe da sua Secretaria de Ação Social. A justificativa era a necessidade de capacitar essa equipe para pesquisar os bancos de dados do IBGE e, consequentemente, identificar necessidades e traçar políticas públicas para essa área. Pelo terceiro ano consecutivo encontrei um grupo completamente diferente à minha espera. Detalhe: nenhuma daquelas pessoas era funcionário de carreira do Município. Concluí que os treinamentos ministrados nos dois anos anteriores tinham sido em vão, uma vez que as pessoas que os receberam não tiveram sequer tempo para por em prática um eventual conhecimento adquirido. Esse é um aspecto sobre a inutilidade dos indicadores: não ter quem os interprete, quem saiba o que fazer com as direções que eles indicam.

A outra coisa que preciso abordar é mais sobre atitudes corretas. Aos 67 anos de idade, com quatro pontes de safena no coração e um histórico familiar de botar medo, os indicadores mais importantes para mim são as taxas de colesterol, de triglicerídeos e de açúcar no meu sangue. Levo religiosamente esses indicadores a cada 6 meses ao meu cardiologista e conversamos sobre o que devo fazer para manter-me longe da UTI. A ajuda de uma nutricionista e de um profissional de educação física garantem alguns procedimentos acessórios importantes para o sucesso da jornada. E assim tenho me mantido longe de complicações por vários anos já.

Essas duas coisas me ensinaram algumas outras sobre indicadores. E a principal delas é que não são necessários esforços gigantescos ou mirabolantes para produzirmos índices fantasticamente elaborados para tomarmos as decisões adequadas, qualquer que seja o assunto. Especialmente em momentos em que o problema que precisamos resolver viaja a uma velocidade difícil de acompanhar, gastar muito tempo na elaboração de diagnósticos pode significar perder a corrida contra o inimigo. Precisamos agir com rapidez e isso conseguimos não complicando a jornada.

Outra coisa é que não vão faltar leigos travestidos de especialistas sempre dispostos a questionar não as decisões que tomamos, mas por que não optamos por um caminho mais sofisticado ou mais complicado para embasar nossas decisões. Esse pseudos cientistas não estão preocupados com o correto encaminhamento de soluções e sim com a fantasia, com a perfumaria do diagnóstico. Para eles, a forma de se obter o diagnóstico é mais importante que o diagnóstico propriamente e que o remédio receitado. Não pensam os falsos especialistas que se os problemas fossem resolvidos pelos indicadores, o médico, a nutricionista, o gestor de políticas públicas, o consultor, o especialista em soluções e todos os outros profissionais que se dedicam a pensar as soluções do problema seriam dispensáveis. Nem sequer passa pelas suas cabeças que os indicadores apenas e tão somente apontam a existência do problema; não mostram soluções.

Uma terceira e também importante coisa que aprendi está relacionada a aspectos estruturais e conjunturais que os indicadores não revelam. O remédio que precisamos está disponível? Ele existe? As condições do paciente permitem sua aplicação? O ambiente institucional favorece a aplicação das medidas necessárias à solução dos problemas? Saber o que deve ser feito é muito importante, mas fazer o que pode ser feito é fundamental.

Uma última coisa: o paciente precisa cooperar. Sem esse ingrediente, todo esforço por parte dos profissionais que se dedicam a propor soluções será sempre em vão. As atitudes individuais têm importância fundamental nas soluções dos problemas, independentemente de quão sofisticados sejam os métodos utilizados para se obter o diagnóstico.

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