Crise do capitalismo e a pandemia do Covid-19

Desde o início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) surgiram muitas especulações sobre seus impactos econômicos e sobre um eventual abalo ao capitalismo neoliberal. As medidas fiscais adotadas pelos países da União Européia, Estados Unidos, Reino Unido entre outros, indicariam uma inflexão das políticas de cunho liberal e sinalizariam um futuro diferente com uma maior participação do Estado na economia, em especial, em setores básicos.

É importante lembrar, que a economia mundial não se recuperara completamente da crise de 2008-2009 e que boa parte dos países já experimentavam um período de desaceleração do crescimento ou mesmo de recessão como no caso do Brasil. As previsões de crescimento feitas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) no ano de 2019 já sinalizavam que 2020 não seria um bom ano para a economia mundial, indicando uma “desaceleração sincronizada”. Tensões entre as potências mundiais e a deterioração do comércio mundial estão entre os motivos da redução do crescimento, o que sinaliza uma crise independente da pandemia.

Ao mesmo tempo que a economia mundial já não cresce com o mesmo vigor, surgem alertas sobre as diferenças regionais crescentes nos países avançados, com gaps crescentes, gerando aumento da pobreza e populações excluídas nos “países ricos”. Enquanto isso, de acordo com estudo da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), a América Latina e o Caribe se tornaram a região mais desigual do planeta, superando em 2018, inclusive o Continente Africano, o que também ampliou as brechas de gênero, étnicas e raciais na região.

O desemprego elevado é outra característica da economia mundial desde a crise de 2008-2009. A elevação das taxas de desemprego nos países desenvolvidos se deu até 2013, a partir do que são superadas pelos países da América Latina Latina e Caribe, com destaque para o Brasil com média superior ao continente desde antes da crise de 2008. O gráfico abaixo, mostra dados da OIT para as taxas de desemprego desde 2007.

No Brasil, a crise econômica se arrasta há mais tempo e seus impactos sociais têm sido intensificados pelas medidas de austeridade fiscal dos últimos anos. Um exemplo é a reforma trabalhista que ampliou o emprego informal e gerou milhões de desalentados, subempregados e desempregados. Portanto, a crise não pode ser totalmente imputada a pandemia do Covid-19, visto que os impactos negativos das medidas de combate a disseminação da pandemia, evidenciaram uma crise econômica e social que já estava em curso e, sobretudo, no Brasil, evidenciou ainda mais as mazelas sociais do país.

Não se pode esquecer que o capital financeiro e produtivo se beneficiam das medidas fiscais de apoio a economia em todos os países, o que não indica uma mudança para um novo sistema econômico, mais justo ou ambientalmente mais responsável. Estamos diante de uma nova etapa do capitalismo, que deve produzir impactos na geopolítica internacional, assim como, nas relações de supremacia econômica a nível global. Por outro lado, existem indícios de aumento da vigilância do Estado sobre seus cidadãos através do rastreamento de sinal de celulares ou mesmo tecnologia de reconhecimento fácil como na China. Estudiosos já apontam para um fortalecimento dos Estados nacionais, com possibilidades de guinadas autoritárias, sendo justificadas pela crise. O futuro é incerto, mas não há até o momento sinais de superação do modelo econômico vigente. O único consenso é de que a economia mundial passará por uma recessão sem precedentes históricos.

Foto: (Issei Kato/Reuters).

Angela Welters – Professora do Departamento de Economia da UFPR e Coordenadora do NESDE.

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